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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

(Jan/2008)

Dia de sol. As crianças sem ter cachorro nem gato, procuravam o que fazer no jardim. Folhas, galhos pequenos entre dois tijolos, uma possível futura fogueira para fazer comidinhas. Todo o tempo do mundo para ser feliz.

De repente, no meio da grama, um filhote de passarinho. Era um pardal. Era tão mirradinho, mas era lindo na sua urgência de cuidados e ainda continha a promessa de voar! Tão pequeno.

O menino então, agachado, arregala os grandes olhos pretos e levanta-se, súbito, num grande salto de alegria com a descoberta do animal. Volta os pés ao chão chacoalhando as mãozinhas, e esmaga o pobre filhote.

A menina, em estado descrente, olhava-o fixamente em seu desejo infantil e perpétuo de consertar a catástrofe. O pássaro virara do avesso e, em apenas um segundo, acabou-se toda a urgência de cuidados e as possíveis promessas de vôos, ninhos, outros filhotes e piados.

Não tinham coragem de olhá-lo novamente. Pensaram muito tempo em que fazer com a criatura, até que investiram forças para terminar com aquilo. A menina o soterrou com o tijolo, o menino se sentia culpado, pedia desculpas. Como de nada adiantasse, às gargalhadas reviveu acena e resolveu ir contar aos adultos da casa o que sucedera.

A vida era um instante.

(2007)

De repente me pego parada no silêncio. Barulhos opacos como se estivesse mergulhada num líquido macio e misterioso. Longe... Olhando ao redor, o que se vê não é nítido, o que me causa espanto e medo, mas ao menos é luminoso e translúcido.
Movo os braços e as pernas, qual um astronauta marítimo. Acho que não saio do lugar. E quanto mais meus pensamentos se assustam, mais braços e pernas se movem rápidos em desespero. Num lampejo, insetos e outros bichos que detesto invadem a cena com seu reagir ameaçado, virados de cabeça para baixo.
Ficam ali, esperneantes, à deriva de um objeto que venha ao alcance de suas patas, de um vento que os leve a outro canto, ou de uma superfície que os esmague.
Mais silêncio.
Um salto no escuro. Mergulho inverso do mergulho. Me escolho a mim não aos outros. Não grudarei na teia de ninguém que não me provocará apodrecimento lento, que não me sugará aos poucos. Que morra esta corja nojenta, embebida em seu próprio visgo.
Eu - as vozes tão bonitas e estranhas, que se espalham consonantes e dissonantes, como as folhas que voam, e as castanholas invisíveis de Santiago - a soar pra sempre com o brilho das estrelas.

Só uma reflexão - (2004)

Penso, não reclamo. Sinto falta, não exclamo, coisa alguma.
Integrar-se nesse mundo é difícil. Nesse auto-exílio frouxo – porque toca e faço tocar os telefones e visito as rodoviárias quase regularmente – ainda me sinto bastante exilada.
Falta. E fico feliz e agradecida por tudo o que não falta. Mas o que falta tornaria esses dias reais, concretos, verdadeiros. O sono à noite seria povoado de tranqüilidade colorida, revigorante e com cheiros impetuosos. O café da manhã estaria cheio de curiosidade e o almoço, dividido com as pessoas mais próximas. O dia seria compartilhado com pessoas de quem eu gosto, com quem verdadeiramente construo idéias. É o que falta.
Se predestinação existe, sou um bilhete de loteria. Mas não é só isso, ainda bem!...
Às vezes tenho medo que a ansiedade e a insegurança ceguem meus olhos e emudeçam a minha voz. Demora quanto até que se possa crescer aos olhos do mundo?
Hoje vi uma menina de olhos grandes. Era leve e ávida como eu sei como. Queria ser assim de novo. Ter o chão sob meus pés para olhar o horizonte com firmeza, estabelecer as trilhas.
Escondida nesta gruta invisível na qual eu resmungo como um inseto branco, não consigo desbravar a floresta. Parece me faltar as cores do ambiente. Não para camuflar. Para matar as charadas, para entender os seres todos. Nem que mais tarde seja preciso me vestir de outra estampa.
Mas onde achar tais cores? Como grudá-las em mim sem que seja com tachinhas tolas e fúteis?
Ao mergulhar bem fundo em mim, lá no fundo do que sempre quis ser e sou e já fui, em estado de latência, me sinto maior do que tudo isso. Sei que sou! Mas não consigo achar a resposta para todas as perguntas importantes.
Talvez nem todas sejam a curto prazo. Existem perguntas tão compridas que só Deus sabe onde colocar a interrogação. A vida parece com um questionamento só.

(2004)

Hoje estive no sol do fim da tarde e vi as folhas dos coqueiros ficarem mais verdes naquela luz amarelo alaranjada. Um vento mole e um pouco úmido lambia de vez em quando sem ser suficiente. Então eu emergia na água morna e refrescante enquanto andorinhas vinham beliscar a superfície.
Depois, sob a luz e a brisa muito amenas desse horário, sentia as gotas que escorriam em mim, naquele silêncio... Tudo falava, emitia ondas e mais ondas. O timbre era um, era seu.
Passeei por todos os seus detalhes. Sua textura, sua força, seus olhos lindos, suas mãos, dominam minhas vontades.

(2004)

Predestinação? Penso que existem certos amores que nos habitam pra sempre. Pra onde esses amores vão depois que esta morada se esgota eu não sei. Se já me habitavam antes de eu vir morar aqui, também não posso saber.
Viver – é com paixão. A afetividade que se desdobra sobre tudo o que criamos, sobre os que caminham conosco, além de maravilhosa, não seria essencial?
Meus desejos estão em branco. Não porque vazios, mas porque todos, amontoados no mesmo espaço e no mesmo tempo, gritam e se sacodem, dormem e silenciam, como um ruído branco.
Não há o que se ame em segredo. É tanto tudo! Tanta vida, tão pouco tempo, tantas paixões e algum medo. Tudo para dar conta. Daqui a pouco, o que vem? Daqui a pouco sou eu.
Serei apenas eu, num palco iluminado. Haverá platéia e meu solo inusitado.

REFLEXO REFLUXO - (2002)

O homem, cansado, em plena semana de trabalho, pensava enquanto ia para casa. O que ele produzia todos os dias, transformava em alimento, à vezes em alegria e, ainda buscava satisfação.
Nesse dia pensava em seus ancestrais. Como seriam, os mais antigos. Teve vontade de sentar para tomar água. Há quanto tempo aquela água era água? Bebeu um gole e sentiu um gosto de milênios e mais purificado impossível. Esse gole ele bebeu mas não matou a sua sede.
Tantos anestésicos, aos sábados, aos domingos e nenhuma entrega. Então não há descanso, nem recompensa. Também não há nenhuma visão para se assombrar, tudo como de costume, para não fugir do hábito.
Lembrou de sua casa, veio um desejo de sossego, mas a promessa não parecia muito verdadeira. A casa, mesmo vazia podia ser cheia de vozes, poucas imagens.
Perdeu-se olhando o movimento das pessoas na calçada. Olhava cada uma com muita atenção e imaginava pensamentos, falas, via cenas.
Engraçado que tudo se tornou de um colorido bonito, desconhecido. Uma coreografia leve na qual as cenas se completavam. Não importava o calor, e os carros eram caras criaturas que passavam por ali e também não importava muito se estavam passando. Não é que as pessoas com nada se preocupassem. Mas é que para tudo parecia haver um milagre, delicado e intenso.
De repente, bebeu um grande gole da água, e sentiu que a vida podia ser uma delícia. Levantou-se.

Dom Quixote - (1999)

desenho por Luis Bueno

De frente para o mundo. De cara para o céu. A cor tranqüiliza. O peito aberto, pulsante, corajoso encara todos os erros. Cara-a-cara. O monstro vem – caminha e te examina e, vem mais rápido. Rapidamente suas mãos sacodem o pano vermelho, sacodem mais! Mas um vento passa e a cor corre atrás do vento.

Os pés fincados no chão. Agora, espada empunhada, o mundo à espera dessa revolta! Em suas fibras, a certeza calma e confiante da metamorfose. Mas um vendaval o cerca, recerca, resseca. Pernas, braços, mãos, músculos, que mesmo fracos, resistem. A espada se contorce com o ácido explícito da injustiça.

Muito bicho pra pouco argumento... que outra função têm nossos olhos de ver?