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domingo, 29 de setembro de 2013

CRÔNICAS DO BILHETE estréia com:

Um gesto de aproximação ou o anúncio de um tapa - Kafka no teatro

por Carolina Bassi
Meu bilhete deste sábado, no 1o. Encontro de Monólogos na sede do Club Noir.
Esperei bastante para ver esta peça. De outras vezes que estivera em cartaz não pude ir por não ter conseguido me programar a tempo, ou por não estar na cidade, ou por estar em algum outro compromisso no mesmo horário, de forma que fiquei esperando o momento em que pudesse vivenciar este olhar sobre o conto de Franz Kafka.

Trata-se de Comunicação a uma Academia, peça com direção de Roberto Alvim e interpretação de Juliana Galdino. Eu, que já havia lido as críticas a respeito do espetáculo, já sabia da esplendorosa atuação de Juliana, indicada, inclusive, ao Prêmio Shell de Melhor Atriz (2009) pelo papel. Mas, é preciso que se diga, uma coisa é ler sobre o que é este espetáculo, e, outra coisa, é presenciá-lo em toda a sua força.

Adentramos a sala, um soldado fardado e armado guarda e vigia o ambiente. Nós, espectadores, escolhemos nossos assentos no teatro e nos vemos à frente de uma grande parede de textura verde, em que se encontra pendurada uma cabeça de alce. A textura, com a iluminação baixa, se parece à de um papel de parede o que, somado à cabeça de animal destacada suavemente por um feixe de luz diagonal, nos remete a uma sala de certa sofisticação européia.
Fonte: Divulgação Club Noir
No entanto, entra em cena, o protagonista, Pedro, Vermelho, que, contando-nos sua história, faz com que a textura verde do fundo nos sugira a floresta da qual ele, o macaco, fora arrancado. Ao mesmo tempo, a cor verde cria um contraste ligeiramente vibrante para a maquiagem avermelhada do rosto do personagem, que nos salta aos olhos colaborando com a face expressiva de Juliana. A maquiagem é sutil, mas, somada ao potencial da voz, do semblante da atriz e da iluminação recortada, é precisa e proporciona a verdadeira impressão de que estamos diante daquele de que nos fala no conto de Kafka, em toda a sua plenitude. 
Fonte: Bob Souza
Os traços do animal se integram aos traços humanos com perfeição e a máscara resultante nos permite sentir o esforço de sua tentativa de adequação ao humano em igual proporção ao esforço de não perder-se de sua individualidade. Os cabelos penteados para trás, confirmam o desejo de alinhamento, apenas uma pequena mecha à frente despenteia-se no sentido do rosto, apontando talvez um traço que se mantém indomável em sua natureza. O traje de cena reforça o intuito de adequar-se com elegância: um distinto smoking preto, com gravata borboleta e camisa muito branca, nos dá a impressão de polidez e assertividade.
Fonte: Bob Souza
O nome, Vermelho, certamente remete à cara de determinados babuínos que apresenta essa coloração e, talvez converse com o fato de que, mais tarde, o personagem venha a beber, combinando com a coloração avermelhada da uma face embriagada. No entanto, acredito que, muito mais do que isso, o adjetivo/substantivo Vermelho é usado por ser uma cor enérgica, que aponta para uma inquietação interna, uma indignação a ponto de explodir, o que fala totalmente a respeito do caráter do personagem. Ao mesmo tempo, Vermelho é a cor destinada à sinalizar tudo o que representa “perigo”, e o personagem é, em certa medida, perigoso por questionar o nosso modo de viver, por se opor, ainda que se insira nele, apenas como tática de sobrevivência. Já o nome Pedro vem de pedra, um nome sedimentar, basilar e, se considerarmos a hipótese de que homens e macacos tenham tido a mesma raiz ancestral, talvez Pedro remeta às nossas origens e à origem de nossos erros. Se considerarmos o que restou ao personagem, trabalhar num circo, Vermelho pode nos fazer lembrar também do palhaço, do clown, de nossa natureza espontânea, primitiva, que diverte o público com sua própria fragilidade – reflexo profundo da fragilidade de todos e de nosso próprio ridículo. 

A iluminação, somada à presença pontual de tão poucas cores e ao traje e caracterização já descritos, chega a nos dar uma impressão de registro fotográfico antigo, ou de um espetáculo de "atrações" do início do século
Fonte: Divulgação Club Noir
O brilhantismo do texto, que nos revela sofisticação e sensibilidade na alma daquele “ser primitivo”, é sublinhado pela atuação que nos causa empatia pelo protagonista e seu discurso. Nos sentimos todos vítimas de uma caçada social civilizatória. Enjaulados, doutrinados a seguirmos todos os mesmos padrões de repetição, da infância à fase adulta. Nos civilizamos para poder seguir o bando – e nos vem a inquietação, nunca abandonaremos a doutrina pelas "jaulas"?

A cabeça de alce posta na parede parece nos lembrar de que nossa porção selvagem já foi domada, derrotada. O alce não passa de uma decoração exótica na sala para exibir a vitória da civilização sobre a natureza em nós. Entretanto, se olharmos bem, esta alegoria pode certamente significar que nosso caráter primitivo estará sempre lá, nos espreitando de dentro da mata densa e vasta de nosso inconsciente, pronto a se manifestar. Em “entrevista” à extinta revista Bravo!, o personagem, logo após atestar seu estado de civilidade ao entrevistador, o provoca: “Mesmo assim, não nego que meu passado animal às vezes tenta se impor e mordisca meus calcanhares. Uma ameaça que, imagino, se coloque ao senhor também.”[1]

O soldado fardado e armado, tão estático durante a comunicação, está ali em cena em ligação a esta mesma ideia - em estado de vigília. Está presente como uma garantia dessa civilização que, se necessário, usa de armas tecnológicas para frear qualquer tipo de manifestação inapropriada, que possa ameaçar a ordem estabelecida. Não é a toa que, logo que nos sentamos, ele parte para a sua primeira ação: estender a nossa frente um elegante cordão de isolamento - uma corda branca presa de lado a lado por dois mastros de metal cromado. A intenção é a de nos “proteger”, nos manter afastados, como se houvesse qualquer perigo na aproximação, no contato físico. A atitude é semelhante ao isolamento proposto no zoológico, instituição tão temida por Vermelho, na qual observamos, à distância, a atitude exótica dos animais, sem nos misturarmos a eles, diferenciando-nos com superioridade.

Interessante mesmo é que, aqueles que tem o dom da fala, ou da comunicação, não mencionam uma só palavra. Nem o soldado presente em cena, nem os outros humanos descritos por Vermelho, que riem e interagem de modo grotesco, não apenas com o macaco, mas entre si. Ao nos depararmos com homens que agem de modo tão animalesco, sem sensibilidade ou pensamento próprio, deparamo-nos com um homem desprovido de sua própria humanidade. Ou faz com que nos questionemos - o que é, afinal, a natureza humana? Nós não vemos estes homens, mas sabemos, pelo protagonista, que eles têm modos idênticos entre si, sem individualidade, o que fatalmente alfineta o modo como buscamos nos assemelhar uns aos outros, seguindo todos a mesma ideologia dentro de nossa cultura cada vez mais globalizada e, portanto, cada vez mais pasteurizada e intolerante às diferenças.

Em oposição à incomunicabilidade dos humanos, Vermelho comunica-se e muito bem. As entonações construídas pela atriz, o ritmo de sua fala, a textura escolhida para dar voz ao personagem, resultam em uma complexidade tal como se a atriz tivesse construído para sua fala uma verdadeira partitura musical. Ficamos paralisados como que diante de uma experiência mística. E sua musicalidade talvez seja ainda mais plena devido ao pertencimento do personagem, mais identificado com a natureza, conforme pode-se notar no trecho do conto:

Nunca senti falta do verbo. Inclusive, a construção melódica que os senhores associam às palavras está na natureza inteira. Grunhidos, assovios, uivos, são conversas. Sempre me comuniquei muito bem por gestos e mímicas.

Sobre esse desenho de voz, a atriz conta:

Eu não faço esse papel. É alguma coisa que acontece. Falando assim, parece que eu sou uma atriz tomada, mas não sou. Sou atriz super técnica, ajudei a criar a voz, o tom, a disposição física, mas tudo isso é habitando as energias propostas pelo autor. Eu só ajudo na voz, no desenho, mas quem faz mesmo acontecer é a atmosfera proposta pelo Kafka. A minha “construção” só tem um certo impacto porque não tentei trazer a obra até a minha dimensão ou compreensão acerca do mundo e das coisas, mas me propus a experienciar a dimensão proposta pelo autor. Tentei traduzir na minha resposta estética algo muito próximo do que experimentei quando li Comunicação. Se em algum momento eu tivesse sentido que não estava traduzindo a obra em sua potência plena não haveria porque montá-la. [2]

A concisão de elementos cênicos combina com o profundo silêncio do espetáculo permeado apenas pela voz do personagem e por trechos de uma lindíssima música orquestral incidente, conforme referida no próprio texto de Kafka, carregando “a tinta” das emoções despertadas pela encenação [3]. Como objetos manipuláveis pelo personagem tem-se apenas três: o cachimbo, um isqueiro e uma clássica garrafa de bolso cromada, onde ele transporta o álcool que bebe. Fica clara a aversão de Vermelho ao álcool, pois que se trata de um artifício que bestifica os sentidos e amortece as percepções. Mesmo assim, como uma lição aprendida, ele o insere em seu cotidiano devido ao fato de que, ao lado do álcool, torna-se mais bem aceito na sociedade, assim como o faz com o hábito de fumar o cachimbo. Podemos notar também que ambos os hábitos são formas de se aniquilar aos poucos e podem nos remeter às ideias de suicídio mencionadas pelo macaco ainda enjaulado no navio, tentando abreviar o sofrimento de estar vivo e sem liberdade. Ambos os vícios mencionados, como tantos outros vícios humanos, parecem ser adotados para que se suporte melhor a vida que se tem. Uma saída absolutamente triste como a do personagem em sua caminhada final, da direita para a esquerda do palco, a passos cambaleantes e doloridos (seja pela bebida, seja pela bala que o atingira antigamente ao ser caçado – e fica explícita aqui, mais uma vez, a ligação entre uma coisa e outra, os vícios também podem diminuir nossa capacidade de ação e facilitar que nos aprisionem).


Fonte: Divulgação Club Noir
O espetáculo acabou e foi maravilhoso tê-lo visto. Anotei rapidamente alguns pensamentos com receio de que se perdessem. Fui andando até o metrô para ir para casa, pois que havia ido sozinha ao teatro. Era sábado à noite, muitas pessoas nas ruas, muitos grupos de pessoas. Reparo como se vestem de modo parecido, duas moças que dessem a rua usando calças justas vermelhas, tênis colorido e blusa preta, quando dois rapazes externam o que eu penso com uma piada: “Vão cantar onde hoje, hein?”. Fazia muito frio, andei mais um pouco e avistei duas outras moças que usavam apenas shorts jeans, tênis e jaquetas brancas. Refletiam a repetição humana descrita na peça, e isso nem era novo à minha percepção, apenas me parecia arrepiante.

Adentro o espaço do metrô, ouço uma música que me agrada e vem de lá de dentro. Vejo dois músicos que se apresentam aos passantes: um rapaz, de pé, toca violino, e uma moça, sentada no degrau da escada, toca um instrumento diferente, composto de teclado e sopro, apoiado em seus joelhos. Aprecio um tempo a delícia daquele som e nutro um pouquinho mais de fé, retomando os pensamentos anteriores, quando ouço uma voz pelos auto falantes do metrô: “É proibido sentar-se nos degraus das escadas e no chão. Por favor, não sente no chão.”

É, a chamada “civilizatória” atrapalhou a música, mas o anúncio em mais alto e bom som veio da peça nesta noite de sábado - sim, Vermelho comunicou-se comigo, estou em renovado estado de alerta.

Juliana Galdino em cena de Comunicação a uma academia. 
Fonte: Divulgação Club Noir.

[1] Entrevista concedida por Pedro, o Vermelho, no quadro Máscara, da revista Bravo!, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=jTUV5nB66sA>, acesso em 27 de setembro de 2013.
[2] Entrevista concedida por Juliana Galdino ao crítico Miguel Arcanjo Prado disponível em <http://entretenimento.r7.com/blogs/teatro/2013/04/17/juliana-galdino-volta-a-virar-macaco-em-comunicacao-a-uma-academia-no-cit-ecum/> acesso em 27 de setembro de 2013.
[3] Trata-se de um trecho da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner.

sábado, 29 de dezembro de 2012

A multiplicidade em "Afinal o que querem as mulheres?", artigo publicado no 8o. Colóquio de Moda - Rio de Janeiro


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Participantes do Grupo de Estudos: Traje de Cena em que apresentei este artigo - 8o. Colóquio de Moda, setembro de 2012, Rio de Janeiro-RJ

O figurino dos sonhos na construção do personagem cinematográfico

Texto publicado no livro "Traje de Cena - Diário dos Pesquisadores", lançado pela Editora Estação das Letras e Cores, neste ano de 2012 e organizado por Fausto Viana e Rosane Muniz.
Análise do figurino no processo de direção de arte dos filmes dirigidos por Jean-Pierre Jeunet, com ênfase no filme "O Ladrão de Sonhos".


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Autores dos artigos publicados em Diário dos Pesquisadores: Trajes de Cena em noite de lançamento do livro em São Paulo/SP. (Livraria da Vila, dia 08 de agosto de 2012)

sábado, 6 de agosto de 2011

"O figurino na telenovela brasileira"

Segue meu artigo publicado no Diário das Escolas - Cenografia PQ11, com Coordenação Editorial de Fausto Viana, distribuído na Quadrienal de Praga 2011 (Congresso Internacional de Cenografia).

Clique aqui para ler - Diário das Escolas



Clique na imagem para folhear o artigo em tamanho ampliado

domingo, 19 de dezembro de 2010

Uma possível abordagem de "Fando e Lis" ou "Tem mais presença em mim o que me falta"

por Carolina Bassi

Fando e Lis, peça escrita pelo poeta, dramaturgo e cineasta espanhol Fernando Arrabal é um texto contundente nas críticas e no apelo espiritual à humanidade. Escrito em 1955 e ligado aos movimentos do Teatro do Absurdo e do Surrealismo, esta obra dramática possui cenas que poderiam ser consideradas absurdas se entendidas “ao pé da letra”. A leitura deve ser outra, os absurdos aqui são usados como metáforas, potencializando as idéias que apresentam, tal qual um poema.

O texto de Arrabal expõe a estranheza e o paradoxo das relações humanas, a dificuldade de comunicação entre os homens. Todos os personagens parecem desafortunadamente se desencontrar em suas tentativas de aproximação.

Todos buscam algo precioso em sua trajetória – seja encontrar aquele desconhecido espaço chamado Tar, seja o sentido da vida, ou a felicidade. De todo modo, sabemos que não temos garantias de sucesso em tarefas nem sempre tão fáceis em nossa vida. E por esse ângulo podemos ver mais um ponto positivo da obra de Arrabal. Ele insiste, através dos personagens Lis e Toso, que mesmo sem garantias, o importante é se colocar a caminho.  Não seria mesmo muito mais precioso o percurso que percorremos para alcançar nossos objetivos do que os próprios objetivos em si? Não seria o sentido da vida a sua própria busca de sentido? Ou ainda, não seria a felicidade a eterna busca por encontrá-la?

Mas, assim como o homem comum parece amedrontar-se e sabotar-se diante de uma grande  conquista em sua vida, os personagens desta história oscilam entre seguir e escapar a seu propósito por meio de inúmeros subterfúgios. Mitaro e Namur perdem tempo com toda a sorte de discussões inúteis; Toso, que parece mais determinado e consciente da busca, permanece atrelado aos colegas sem conseguir sair do lugar; Lis, gentil e amorosa, tem muita vontade de chegar a Tar, porém une-se a Fando, homem rude, truculento e sádico que impossibilita pouco a pouco todas as suas chances de sucesso e alegria.

Na figura destes dois personagens centrais, outras questões se colocam, como a falta de auto-estima e confiança em si mesmo e o desejo de ser amado. Lis se coloca sob a proteção de Fando, confere a ele essa sensação de poder que o agrada. Mas quando esta se torna uma relação de posse, ele a “coisifica” e acaba por excluir todo o seu direito à vontade própria, culminando em sua morte.

A metáfora desta relação é grandiosa, pois pode ser estendida a muitas instâncias. Estende-se a todas as disputas de poder sociais, estejam elas relacionadas à esfera profissional, fraternal ou passional. Por todas estas razões de cunho universal, esta obra é bastante atual e sua realização de extrema importância – à medida em que nos provoca a rever nossas posturas mundo afora. Afinal, a repressão física, psíquica e intelectual existe em todos os lugares e impede que a humanidade cresça, para além de seus medos inconfessos.

Com gratidão ao Fred que me apresentou e propôs este texto e a Marcos Cesana que me emocionou com sua leitura no papel de Fando, em reunião do Grupo Chão de Teatro ano passado.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Reflexão sobre a tirania ampliada a partir da leitura de "Carta ao Pai", de F. Kafka (1º sem / 2006)

Texto escrito entre 2005 e 2006 e enviado ao diretor Antônio Januzelli durante processo de dramaturgização da peça "Querido Pai".
Foi um trabalho colaborativo, ele havia pedido a todos da equipe que escrevessem coisas, se quisessem. Como é um tema sobre o qual reflito muito, escrevi e entreguei.
Eu estava envolvida com a cenografia do espetáculo, mas todos podiam participar dos processos com os atores, o que foi muito fértil.
Depois, como o conceito da cenografia foi usar o espaço cênico do Teatro Viga exatamente como estava, infelizmente tivemos de nos ausentar dos laboratórios. Mas o curto período em que estivemos em contato com Janô e com os atores foi muito interessante e muito bom, sou grata por ter estado lá.
Segue meu texto, e esclareço que ele não faz parte da peça.


Escrevo este texto na intenção de questionar as tiranias, como é possível que nos deixemos levar pelos tiranos?

Agora reconheço que em alguns casos, isso se dá pelo medo de perder quem se ama – o tirano. Obviamente nenhum medo de perdê-lo por suas características tirânicas, mas por aquelas que teve um dia... e por aquelas que ele não valoriza em si, diamantes brutos... pela pessoa que, sabemos, ele poderia ser.

Por essa razão mais simples – o medo de perdê-lo – não lhe exponho minha dor, não questiono suas posturas, seu amargor perante a mim e meus projetos pessoais. (Projetos que pra mim, num dado momento passaram a secretos investimentos em formas improváveis...[1] Sim, improváveis. Tal a descrença instaurada pelo tirano). Tem-se medo de que não se possa mais contar com a possibilidade (porque sempre há esperança, mesmo que inconsciente) de conquistar seu afeto, sua atenção e admiração.

A luta é diária e exaustiva. Movo céus e terra para tornar-me mais brilhante, altamente desejável, inteligente, interessante... E o tirano me olha com indiferença, deixando explícito que minha atitude é notada apenas como esforço. Ele não vê o que sou.

No fundo, nesse momento, eu também ainda não me enxergo com nitidez, o que complica mais a minha tarefa de revelar-me ao tirano e ao mundo. Estou tão asfixiada pelos seus nãos, pelas suas recusas, que já me acostumei a me enxergar como você quer que eu me enxergue: Nada de especial.

E se ele vê o embrião que carrego viçoso, tenho a sensação de que finge não ver. Disfarça e ainda tenta distrair minha atenção para que eu também não o veja. Pois se eu não o vir, não cuidarei que ele cresça, serei sempre dependente de sua mão pesada. Continuarei tiranizada, mantendo seu ofício de tirano.

É tão raro que ele seja bom comigo que, se sorri alegre, meu corpo todo floresce! Fico feliz. Se me abraça enquanto dorme, acordo um pouco, fecho os olhos e me concentro nessa sensação... Tenho esperança de todos os carinhos ausentes, de um bom humor, porque se lembrou, de repente, e pra não mais esquecer, de que me ama, como antes. Este momento, como outros, tem força de oração.

*
Me lembro que um dia me convidou para ver um filme. Um que já tínhamos visto, mas que era bonito, um de seus favoritos. Me senti tão feliz com o convite que na hora tive que disfarçar para não parecer boba. Fui para minhas tarefas do dia, encontrei amigas em uma reunião de trabalho e me apressei, chegando meia hora antes do combinado, pois sei que detesta atrasos e me castiga se cometo esse deslize. Não era noite de deslizes. Era noite de mãos dadas, de cinema junto, jantar, banho quente, lençol macio...
Cheguei no lugar combinado, no centro da cidade. Um lugar feio, mas próximo do lugar onde ele trabalhava, próximo do cinema. Minha blusa era de verão, amarela, radiante. O dia tinha sido quente e eu usava sandálias. Começou a chover. Pessoas voltando do trabalho corriam, eu me abriguei numa banca de revistas. Olhava pra todos os lados, não o via. O tempo passando. Meninos de rua chegavam perto e jogavam água suja uns nos outros e nas mulheres de saia. Homens olhavam meu decote. Muitas pessoas falavam alto. A chuva só aumentava e fazia aumentar meu nervoso. Meus pés encharcados da água suja. A banca ia fechando. Liguei então muitas vezes para a sua casa – por que não me ligou para avisar que não vinha?... fiquei chateada, mas ele devia ter um motivo...
Foi quando desisti e voltei pra dentro do metrô que o vi chegar pela escada rolante... Me olhou com espanto - o que você está fazendo aí? Respondi que o esperava há quase 40 minutos... E ele, enfurecido, explicou que enquanto isso me esperava em outra saída da mesma estação...
A chuva cessou, ainda bem, e a passos rápidos, fomos em direção ao cinema, sem mais explicações. Estaria tudo bem, não fosse esse o caso de um tirano mau humorado. Por essa razão, ainda teve que rir da minha espera como se tivesse sido estúpida, teve também que lamentar o convite, largar da minha mão e silenciar, com um sarcasmo no canto da boca.
Chegamos finalmente ao cinema. Havia passado 5 minutos do início do filme e, em decorrência deste infortúnio, resmungou mais algumas vezes, parando apenas porque já estávamos adentrando a sala. Após a sessão, mãos vazias e muito mais silêncio... seu rosto só conhecia a direção oposta.
Metrô mais uma vez. Eu, a tiranizada, pedia desculpas, e como ele ficasse mais irritado, calei-me (também com certa irritação). Um fiapo de sanidade, já quase no fim do percurso, e tomei coragem para reclamar que o que havia acontecido não era tão grave assim. E esse, foi o único momento em que ele falou comigo de novo naquela noite, poucas palavras numa frase fria como a chuva que eu já havia tomado, você nem sabe o que se passa pela minha cabeça. Além de tudo, devia ser minha a culpa por desconhecer seus pensamentos, por sua raiva e por tudo de ruim que se passava por trás daquela fisionomia.
Sentei no banco do vagão, ele continuou em pé. Sua estação chegava uma antes da minha. Estava tarde, mas ele não foi comigo até a próxima. Havia planos de irmos pra casa juntos, mas não houve então nenhum comentário. Ruídos. Me deu um beijo de raspão e foi embora.
*

Esse tipo de coisa acontece e fica-se triste, largado como um resto[2]. Sentia-me mal com o desamor, com a desimportância que os dias novamente assumiriam; por ter estragado a noite que seria boa e, além, por ter causado tanto aborrecimento (!), talvez até por muito tempo antes, o que o evento o teria feito apenas lembrar.

Mas lembrar de quê? E a resposta não vem. Na verdade, talvez nem haja resposta, ela nunca vem. Não me sinto muito bem. Mas por quê? E a resposta não vem mesmo.

Não há respeito, não há carinho, não há futuro, não há nada. Há o sentimento de posse do tirano em relação ao tiranizado, numa relação que sempre, ou quase sempre, se estabelece entre pessoas que se amaram mutuamente, ou que deveriam se amar por algum motivo[3].

Me vejo procurando por mim tocando a vida cotidiana. Quando ia à sua casa, procurava detalhes que denunciassem um motivo, uma razão pra falta de interesse, pra tanta penalidade. Afinal, de tudo eu era excluída. De suas novidades, dos discos novos comprados, dos livros novos comprados ou lidos, de seu passado, dos lugares onde passara o dia, dos passeios que pretendia fazer, sempre com outras pessoas e não comigo. Nunca mais um convite. Sempre assim, se quiser ir, vá, não faz diferença. Sou excluída também dos finais de semana. Dos assuntos, dos projetos...

Ficar sozinho, ou ficar comigo? Ele se faz essa pergunta e meu desespero se torna completo. Me sinto muito menos eu mesma sem o tirano. O que vou fazer?

Eu o amo. O amo tanto, que acredito nele acima de tudo. Quero ver as coisas a partir de seus olhos. O admiro, e como acredito ser merecedora de sua admiração, quero que, portanto, ele também me demonstre isso, ou não estarei satisfeita. Quero que me demonstre seu amor, ou também não estarei satisfeita.

O tirano amado assume para mim um tamanho cada vez mais descomunal enquanto me torno minúscula. Antes não havia desproporção. A ele me doei e ele me quis. E vice-versa. Comecei com essa doação apaixonada e voluntária, quis ser apenas dele, quis que mais ninguém me amasse, pois que eu também não queria mais ninguém.

Mas depois, sinto que ninguém mais me amará e que não há escolha para mim. Tornei-me dependente dele, de sua força, de seu julgamento e raciocínio – já que me foi censurada toda a liberdade de tomar minhas próprias atitudes, coerentes à minha pessoa. Não me conheço mais. Quero procurar por mim e não sei nem por onde começar.

Um pesadelo instaurado. Uma solidão incurável e indescritível, que se eu abro a boca pra falar dela, sou reprimida pelo tirano, seco e inteligente, acusando como bobagem a dor que sinto, quanto mais profunda ela for.

A vida dói e não se pode falar ai. Muito menos pra quem mais se ama e confia. Se emagreço, ele não nota. Se adoeço, ele não imagina o porquê. Estou de luto duas vezes: pelo amor que me é negado, com crueldade, e por mim, que me perdi.

Eram minhas, aquela passividade, aquela subserviência? E aquela mendicância de amor, era minha também? Não, não eram minhas estas más qualidades. E como você, tirano amado, pôde escolhê-las para mim?? Logo eu, que já o amava de graça, a troco apenas de seus grandes sonhos e de seus olhos bons?...

Eu, em sua casa, me lembro de transitar pelos objetos e olhá-los com um respeito demasiado: eram muito mais interessantes, eram especiais, eram seus!... (Queria agradar tudo em você e se pudesse, agradaria até o que o rodeia). E só agora percebo que eu me via menor ainda que seus objetos, muito menos importante e querida. Hoje, olho pra eles e percebo tudo em escala natural. Às vezes até menor. São pequenos, são objetos mesmo. São ridículos até, sujos às vezes. Não mereciam ser nada a mais que isso.

Pois que com muito custo e paciência, volto a mim com violência, já transformada em outra, muito melhor e me reconheço mais que em qualquer tempo. Tenho força própria. O mundo está brilhante. As experiências têm gosto. Melhor dizendo, gostos. Diferentes e saborosos... Tenho luz própria. Ninguém passa sem me ver. Descobri em mim, uma boca grande. Tenho fome da vida. Estou grávida de sonhos. Amor não vem em migalhas... O amor me inunda sem pressa, em ondas quentes e úmidas, largas e salgadas como o mar inteiro...

Alguém curou minhas asas quebradas, ou eu mesma as curei. Quero voar. Leveza e alegria.

Mas o tirano, quem diria! Descubro que só o é, porque acima de tudo, é um frágil. É alguém que teme não ser admirado dentro de seus conceitos, alguém que teme não ter o controle sobre o outro - em quem ele vislumbra a possibilidade de vôos mais altos, vôos que possam criar uma distância entre ele e seu objeto de tirania. O tirano é também alguém que teme o julgamento alheio. E usa um método, de certa forma, violento. Antes que lhe digam qualquer coisa, já vem com um tabefe, criando alguma superioridade e a predisposição ao medo nas pessoas, as quais certamente pensarão duas vezes antes de lhe dizer algo novamente. Por isso tudo, o tirano também constrói sua existência em cima de quem ele oprime – não fosse o oprimido, o que seria do tirano? É uma relação de dependência, paralela à outra, e menos evidente.

Uma vez tirano, sempre tirano? Não, nem sempre. Mas imagino que seja como um vírus, sempre muda de aspecto... A mesma coisa com o tiranizado. É bom que se policie e não se submeta. As pessoas cedem. Mas não precisam ceder sempre.

________________________________________
[1] “Onde não há jardins, as flores nascem de um secreto investimento em formas improváveis” – Carlos Drummond de Andrade, no poema Campo de flores.
[2] Como no capítulo Fading, de Fragmentos de um Discurso Amoroso, de Roland Barthes.
[3] Parentesco, proximidade, como é o caso de Kafka e seu pai, por exemplo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Crítica ao filme Nine, de Rob Marshall

Assistir ao filme Nine (2009), do diretor Rob Marshall, uma pretensa homenagem ao diretor italiano Federico Fellini, é como assistir a um desfile videoclíptico de lindas mulheres, que mesmo sendo lindas e excelentes atrizes, afiguram-se como coreografadas por Beyoncé nas cenas musicadas.
Cenas do musical Nine

Do desconforto dessa inadequação, passamos a lamentar uma irreparável lacuna: como fazer um filme musical homenageando Fellini deixando de lado a genialidade do maestro Nino Rota, marca registrada na trilha sonora de suas produções?

Fellini possuía o dom de criar obras profundas, complexas, cheias de camadas interpretativas e, ainda assim, não soar pedante, agradar ao gosto popular. Não só por abordar assuntos que são do homem, universais, mas pelo contar leve, próximo, e cômico muitas vezes.

Não entender uma obra tão diversa quanto a de Fellini não é fato incomum. O tom de seus filmes muitas vezes não foi compreendido, foi tido como exagerado, fora de propósito, às vezes até cafona. Mas isso para quem? Para aqueles que não se deixam envolver por histórias que não se contam na mesmice, para os muitos que desconhecem a linguagem da poesia. E não posso deixar de dizer, também para os muitos que, hoje em dia, nunca foram ao circo. Um ou outro vai ao teatro, e olhe lá.

O filme de Marshall baseia-se em Oito e Meio (1963), nono trabalho do diretor italiano, estrelado por Marcello Mastroianni, Anouk Aimée e Sandra Milo. Nele, Guido Anselmi, o protagonista interpretado por Marcelo, é um cineasta que está a poucos dias de começar a rodar seu filme, mas não consegue sequer escrever o roteiro e sofre todo tipo de cobrança de sua equipe até o impasse final. Em meio à perseguição sofrida por jornalistas, assistentes, produtores... a pressão aumenta com o confronto entre sua esposa e sua amante. Em Nine, salva-se a atuação brilhante do ótimo elenco escolhido para a película. Ainda que se fique com uma sensação bastante diferente da que se tem assistindo a Oito e Meio.

No original, quando tudo parece mesmo perdido, vemos a partir da aparição do mágico Snaporáz, os personagens da vida de Guido (considerado alter ego de Fellini), entrando em cena, num picadeiro, como os legítimos personagens que ele, desde o princípio, entendia fazerem parte de seu filme. Vê-se também, puxando a fila de personagens, alguns palhaços que tocam cornetas e um menino – que, não por acaso, é o regente/diretor do show e o último a sair de quadro, quando as luzes se apagam. Isto é o circo! Esta é a metáfora do cinema de Fellini, e da confusão que sinceramente se confessa (em imagem e texto nesta cena), com uma pureza infantil até, na maneira de contar a sua visão do mundo e na sua maneira de vivenciá-lo. Há uma atmosfera absolutamente onírica e não sabemos se ele, Guido, voltou atrás e realizou, ou não, o filme afinal de contas. E isso não importa. Sabemos que idealmente ele realizou – tudo o que ele buscava traduzir em imagem durante todo o filme é dito com esta cena final.

Marcello Mastroianni, como o diretor Guido Anselmi, em cena final de Oito e Meio

Rob Marshall se esforça em manter este clima quando coloca na última sequência, com Guido em estúdio, a entrada inesperada e triunfal de todos os personagens anteriormente apresentados no filme. Infelizmente eles posam como dançarinos da Brodoway, não têm a simplicidade genuína do circense, a simplicidade intentada pelo diretor de Oito e Meio. A figura do menino (o ímpeto rebelde, impulsivo e criativo) também está presente e talvez seja a melhor de todas as referências feitas ao original.

O papel da esposa de Guido desempenhado por Marion Coutillard, antes interpretado por Anouk Aimée, é digno, forte, contundente, mas tendencioso ao tentar misturar vida e obra de Fellini – Giulietta Masina e Luisa Acari, respectivamente – de forma leviana, o que além de tudo não existe no primeiro filme. A Luísa de Nine (diferentemente da de Oito e Meio, que embora mantenha postura crítica, não nos dá subsídios para identificá-la profissionalmente), é parceira criativa de Guido (como Giulietta era de Federico), consultada pra tudo e respeitada criativamente, inclusive pela equipe. Ela não só é atriz, como é também estrela do filme que lança a carreira do marido, Guido – referência explícita ao filme La Strada e aos filmes da primeira fase de Fellini.
 Marion Coutillard como Luisa Acari, em Nine

 A crise do casal nas duas versões também parece diferente. Em Nine, desapercebidamente o diretor age como um sedutor barato com todas as atrizes do teste, de maneira igual. Assim, sua esposa, como uma de suas atrizes mais antigas, reconhece neste teste a mesma fala, o mesmo gesto, a mesma sedução antes dirigida a ela quando se conheceram, trabalhando juntos, e que ela julgava ter sido única e especial. Aqui o que fere é a banalização do gesto e do sentimento. A “traição”, assim, é vista, e seu prolongamento é sugerido, a partir da banalização desse gesto de carinho e admiração.
Anouk Aimée como Luisa em Oito e Meio
Mastroianni ao lado de Anouk Aimée em foto still de Oito e Meio, autografada por Anouk
Em Oito e Meio a esposa se magoa com a exposição da intimidade do casamento e da deterioração da relação. O diretor aqui quer colocar na película suas angústias pessoais, as questões de sua vida privada, como querendo colocar-se como matéria-prima, material humano a ser trabalhado pelo cinema. Importa muito pouco a relação do diretor com as várias atrizes em si, mas, sim, o papel que elas representam em cena – uma delas, “a esposa” e todas as outras, “a amante”. Aqui “a traição” é encenada e reconhecemos os personagens da esposa e da amante por seus figurinos, códigos pré-definidos: a roupa espalhafatosa de uma e os óculos intelectuais da outra.
Sandra Milo no papel da amante, Carla, em seu figurino espalhafatoso no filme original

O papel de Nicole Kidman corresponde ao de Cláudia Cardinale, mas, ao mesmo tempo, tenta remontar ao de Anita Ekberg em La Dolce Vita (1960), infelizmente sem igualar-se em magia.

Claudia Cardinalle é a atriz cobiçada de Oito e Meio

Não há problema com a excelente atuação de Nicole, mas a cena, embora seja boa, não é lírica, e seu personagem não alcança a estatura de mito que o de Anita parece alcançar sem nenhum esforço. No texto, o personagem de Nicole prefere estar na pele do homem, quer sair do pedestal que confere às musas o caráter indefectível. É mais realista.

Nicole Kidman, no filme Nine desempenhando o papel da atriz cobiçada de Oito e Meio - influência clara da diva Ekberg

Anita Akberg como a diva de La Dolce Vita de Fellini

A amante, antes interpretada por Sandra Milo, agora aparece na pele de Penélope Cruz. Suas cenas são bastante parecidas, desconsiderando a cena musicada em que Penélope dança. A atriz espanhola também tem ótima atuação, mas seu papel aparece com menor profundidade, não sabemos nada de sua família (a não ser que tem um marido para o qual não dá importância) vemos dela apenas sua paixão obsessiva por Guido, tentando até suicídio para chamar sua atenção.

Penélope Cruz em cena em cena da chegada à estação de trem
Sandra Milo em cena que foi refilmada de maneira quase idêntica em Nine

A mãe e o pai do cineasta em Oito e Meio são velhos e o pai tem seu destaque – após uma conversa, Guido o ajuda a entrar num buraco e em seguida despede-se da mãe num beijo confuso, que de materno se torna passional (além da figura da mãe se transformar nessa cena, na da esposa).

Em Nine, o personagem do pai é omitido e a mãe de Guido é atraente – interpretada não por uma senhora qualquer, mas por Sophia Loren. Seu personagem, imageticamente, lembra muito um personagem feminino de Amarcord (1973), uma mulher bonita chamada Grasdisca, freqüentadora do cinema e da qual todos os meninos queriam se aproximar na sala escura para tirar algum proveito. A senhora mais maternal do filme é a figurinista Eleonora / Lili, interpretada pela genial Judi Dench, que, no original, tem uma passagem ínfima em uma das cenas. Lili funciona um pouco como a consciência de Guido, completamente desgovernado, à beira de um ataque de nervos durante quase todo o filme. O abismo de se realizar um filme, em uma obra e depois na outra, parece se distinguir. O Guido Anselmi interpretado por Mastroianni parece preocupado em dizer algo simples, mas importante. Já o Guido Contini interpretado por Jerry Lee Lewis, a julgar pelo conjunto da película, parece preocupado em dizer alguma coisa, mas de modo grandioso.

Ao centro, o personagem Gradisca, em cena do filme Amarcord, de Federico Fellini
A atriz, Sophia Loren, no papel de mãe de Guido Contini

Completando o hall das mulheres escolhidas, há também Saraghina, a prostituta. Trata-se não apenas de uma figura grotesca – Saraghina era feia e gorda – como também mítica, representando, para aqueles meninos, o sexo, a fertilidade, a abundância. Não por acaso, esse personagem residia junto ao mar. Na versão americana, Saraghina não é nem grotesca, nem feia, nem gorda. Parece uma sensual devoradora de homens, perigosa. Sua dança na areia na versão original era mais ingênua, até um pouco cômica. Na versão atual, é estudada para seduzir, coreografada.

A atriz Eddra Gale como Saraghina no filme Oito e Meio
A cantora Fergie interpretando Saraghina no musical de Marshall

Outros personagens de Oito e Meio, assim como algumas figuras muito presentes na obra felliniana, não foram considerados nesta homenagem. Sente-se falta do circo no filme de Rob Marshall. Nele, o espetáculo ficou por conta de um cabaré-meio-Brodoway, onde as ruínas de Roma, no cenário ao fundo, são mero enfeite. Talvez, para tentar lembrar que se queria homenagear um cineasta italiano...

Pode-se entender porque Marshall tenha escolhido este filme para fazer a sua releitura e homenagem a Fellini, por ser um dos filmes mais apontados como auto-biográficos do diretor. Mas na tentativa de explicar o que Fellini apenas sugere e deixa no ar para sentirmos, acaba com sua poesia característica e corre o sério risco de interpretar mal aquilo de simples que Fellini gostaria de dizer.