domingo, 29 de setembro de 2013

CRÔNICAS DO BILHETE estréia com:

Um gesto de aproximação ou o anúncio de um tapa - Kafka no teatro

por Carolina Bassi
Meu bilhete deste sábado, no 1o. Encontro de Monólogos na sede do Club Noir.
Esperei bastante para ver esta peça. De outras vezes que estivera em cartaz não pude ir por não ter conseguido me programar a tempo, ou por não estar na cidade, ou por estar em algum outro compromisso no mesmo horário, de forma que fiquei esperando o momento em que pudesse vivenciar este olhar sobre o conto de Franz Kafka.

Trata-se de Comunicação a uma Academia, peça com direção de Roberto Alvim e interpretação de Juliana Galdino. Eu, que já havia lido as críticas a respeito do espetáculo, já sabia da esplendorosa atuação de Juliana, indicada, inclusive, ao Prêmio Shell de Melhor Atriz (2009) pelo papel. Mas, é preciso que se diga, uma coisa é ler sobre o que é este espetáculo, e, outra coisa, é presenciá-lo em toda a sua força.

Adentramos a sala, um soldado fardado e armado guarda e vigia o ambiente. Nós, espectadores, escolhemos nossos assentos no teatro e nos vemos à frente de uma grande parede de textura verde, em que se encontra pendurada uma cabeça de alce. A textura, com a iluminação baixa, se parece à de um papel de parede o que, somado à cabeça de animal destacada suavemente por um feixe de luz diagonal, nos remete a uma sala de certa sofisticação européia.
Fonte: Divulgação Club Noir
No entanto, entra em cena, o protagonista, Pedro, Vermelho, que, contando-nos sua história, faz com que a textura verde do fundo nos sugira a floresta da qual ele, o macaco, fora arrancado. Ao mesmo tempo, a cor verde cria um contraste ligeiramente vibrante para a maquiagem avermelhada do rosto do personagem, que nos salta aos olhos colaborando com a face expressiva de Juliana. A maquiagem é sutil, mas, somada ao potencial da voz, do semblante da atriz e da iluminação recortada, é precisa e proporciona a verdadeira impressão de que estamos diante daquele de que nos fala no conto de Kafka, em toda a sua plenitude. 
Fonte: Bob Souza
Os traços do animal se integram aos traços humanos com perfeição e a máscara resultante nos permite sentir o esforço de sua tentativa de adequação ao humano em igual proporção ao esforço de não perder-se de sua individualidade. Os cabelos penteados para trás, confirmam o desejo de alinhamento, apenas uma pequena mecha à frente despenteia-se no sentido do rosto, apontando talvez um traço que se mantém indomável em sua natureza. O traje de cena reforça o intuito de adequar-se com elegância: um distinto smoking preto, com gravata borboleta e camisa muito branca, nos dá a impressão de polidez e assertividade.
Fonte: Bob Souza
O nome, Vermelho, certamente remete à cara de determinados babuínos que apresenta essa coloração e, talvez converse com o fato de que, mais tarde, o personagem venha a beber, combinando com a coloração avermelhada da uma face embriagada. No entanto, acredito que, muito mais do que isso, o adjetivo/substantivo Vermelho é usado por ser uma cor enérgica, que aponta para uma inquietação interna, uma indignação a ponto de explodir, o que fala totalmente a respeito do caráter do personagem. Ao mesmo tempo, Vermelho é a cor destinada à sinalizar tudo o que representa “perigo”, e o personagem é, em certa medida, perigoso por questionar o nosso modo de viver, por se opor, ainda que se insira nele, apenas como tática de sobrevivência. Já o nome Pedro vem de pedra, um nome sedimentar, basilar e, se considerarmos a hipótese de que homens e macacos tenham tido a mesma raiz ancestral, talvez Pedro remeta às nossas origens e à origem de nossos erros. Se considerarmos o que restou ao personagem, trabalhar num circo, Vermelho pode nos fazer lembrar também do palhaço, do clown, de nossa natureza espontânea, primitiva, que diverte o público com sua própria fragilidade – reflexo profundo da fragilidade de todos e de nosso próprio ridículo. 

A iluminação, somada à presença pontual de tão poucas cores e ao traje e caracterização já descritos, chega a nos dar uma impressão de registro fotográfico antigo, ou de um espetáculo de "atrações" do início do século
Fonte: Divulgação Club Noir
O brilhantismo do texto, que nos revela sofisticação e sensibilidade na alma daquele “ser primitivo”, é sublinhado pela atuação que nos causa empatia pelo protagonista e seu discurso. Nos sentimos todos vítimas de uma caçada social civilizatória. Enjaulados, doutrinados a seguirmos todos os mesmos padrões de repetição, da infância à fase adulta. Nos civilizamos para poder seguir o bando – e nos vem a inquietação, nunca abandonaremos a doutrina pelas "jaulas"?

A cabeça de alce posta na parede parece nos lembrar de que nossa porção selvagem já foi domada, derrotada. O alce não passa de uma decoração exótica na sala para exibir a vitória da civilização sobre a natureza em nós. Entretanto, se olharmos bem, esta alegoria pode certamente significar que nosso caráter primitivo estará sempre lá, nos espreitando de dentro da mata densa e vasta de nosso inconsciente, pronto a se manifestar. Em “entrevista” à extinta revista Bravo!, o personagem, logo após atestar seu estado de civilidade ao entrevistador, o provoca: “Mesmo assim, não nego que meu passado animal às vezes tenta se impor e mordisca meus calcanhares. Uma ameaça que, imagino, se coloque ao senhor também.”[1]

O soldado fardado e armado, tão estático durante a comunicação, está ali em cena em ligação a esta mesma ideia - em estado de vigília. Está presente como uma garantia dessa civilização que, se necessário, usa de armas tecnológicas para frear qualquer tipo de manifestação inapropriada, que possa ameaçar a ordem estabelecida. Não é a toa que, logo que nos sentamos, ele parte para a sua primeira ação: estender a nossa frente um elegante cordão de isolamento - uma corda branca presa de lado a lado por dois mastros de metal cromado. A intenção é a de nos “proteger”, nos manter afastados, como se houvesse qualquer perigo na aproximação, no contato físico. A atitude é semelhante ao isolamento proposto no zoológico, instituição tão temida por Vermelho, na qual observamos, à distância, a atitude exótica dos animais, sem nos misturarmos a eles, diferenciando-nos com superioridade.

Interessante mesmo é que, aqueles que tem o dom da fala, ou da comunicação, não mencionam uma só palavra. Nem o soldado presente em cena, nem os outros humanos descritos por Vermelho, que riem e interagem de modo grotesco, não apenas com o macaco, mas entre si. Ao nos depararmos com homens que agem de modo tão animalesco, sem sensibilidade ou pensamento próprio, deparamo-nos com um homem desprovido de sua própria humanidade. Ou faz com que nos questionemos - o que é, afinal, a natureza humana? Nós não vemos estes homens, mas sabemos, pelo protagonista, que eles têm modos idênticos entre si, sem individualidade, o que fatalmente alfineta o modo como buscamos nos assemelhar uns aos outros, seguindo todos a mesma ideologia dentro de nossa cultura cada vez mais globalizada e, portanto, cada vez mais pasteurizada e intolerante às diferenças.

Em oposição à incomunicabilidade dos humanos, Vermelho comunica-se e muito bem. As entonações construídas pela atriz, o ritmo de sua fala, a textura escolhida para dar voz ao personagem, resultam em uma complexidade tal como se a atriz tivesse construído para sua fala uma verdadeira partitura musical. Ficamos paralisados como que diante de uma experiência mística. E sua musicalidade talvez seja ainda mais plena devido ao pertencimento do personagem, mais identificado com a natureza, conforme pode-se notar no trecho do conto:

Nunca senti falta do verbo. Inclusive, a construção melódica que os senhores associam às palavras está na natureza inteira. Grunhidos, assovios, uivos, são conversas. Sempre me comuniquei muito bem por gestos e mímicas.

Sobre esse desenho de voz, a atriz conta:

Eu não faço esse papel. É alguma coisa que acontece. Falando assim, parece que eu sou uma atriz tomada, mas não sou. Sou atriz super técnica, ajudei a criar a voz, o tom, a disposição física, mas tudo isso é habitando as energias propostas pelo autor. Eu só ajudo na voz, no desenho, mas quem faz mesmo acontecer é a atmosfera proposta pelo Kafka. A minha “construção” só tem um certo impacto porque não tentei trazer a obra até a minha dimensão ou compreensão acerca do mundo e das coisas, mas me propus a experienciar a dimensão proposta pelo autor. Tentei traduzir na minha resposta estética algo muito próximo do que experimentei quando li Comunicação. Se em algum momento eu tivesse sentido que não estava traduzindo a obra em sua potência plena não haveria porque montá-la. [2]

A concisão de elementos cênicos combina com o profundo silêncio do espetáculo permeado apenas pela voz do personagem e por trechos de uma lindíssima música orquestral incidente, conforme referida no próprio texto de Kafka, carregando “a tinta” das emoções despertadas pela encenação [3]. Como objetos manipuláveis pelo personagem tem-se apenas três: o cachimbo, um isqueiro e uma clássica garrafa de bolso cromada, onde ele transporta o álcool que bebe. Fica clara a aversão de Vermelho ao álcool, pois que se trata de um artifício que bestifica os sentidos e amortece as percepções. Mesmo assim, como uma lição aprendida, ele o insere em seu cotidiano devido ao fato de que, ao lado do álcool, torna-se mais bem aceito na sociedade, assim como o faz com o hábito de fumar o cachimbo. Podemos notar também que ambos os hábitos são formas de se aniquilar aos poucos e podem nos remeter às ideias de suicídio mencionadas pelo macaco ainda enjaulado no navio, tentando abreviar o sofrimento de estar vivo e sem liberdade. Ambos os vícios mencionados, como tantos outros vícios humanos, parecem ser adotados para que se suporte melhor a vida que se tem. Uma saída absolutamente triste como a do personagem em sua caminhada final, da direita para a esquerda do palco, a passos cambaleantes e doloridos (seja pela bebida, seja pela bala que o atingira antigamente ao ser caçado – e fica explícita aqui, mais uma vez, a ligação entre uma coisa e outra, os vícios também podem diminuir nossa capacidade de ação e facilitar que nos aprisionem).


Fonte: Divulgação Club Noir
O espetáculo acabou e foi maravilhoso tê-lo visto. Anotei rapidamente alguns pensamentos com receio de que se perdessem. Fui andando até o metrô para ir para casa, pois que havia ido sozinha ao teatro. Era sábado à noite, muitas pessoas nas ruas, muitos grupos de pessoas. Reparo como se vestem de modo parecido, duas moças que dessem a rua usando calças justas vermelhas, tênis colorido e blusa preta, quando dois rapazes externam o que eu penso com uma piada: “Vão cantar onde hoje, hein?”. Fazia muito frio, andei mais um pouco e avistei duas outras moças que usavam apenas shorts jeans, tênis e jaquetas brancas. Refletiam a repetição humana descrita na peça, e isso nem era novo à minha percepção, apenas me parecia arrepiante.

Adentro o espaço do metrô, ouço uma música que me agrada e vem de lá de dentro. Vejo dois músicos que se apresentam aos passantes: um rapaz, de pé, toca violino, e uma moça, sentada no degrau da escada, toca um instrumento diferente, composto de teclado e sopro, apoiado em seus joelhos. Aprecio um tempo a delícia daquele som e nutro um pouquinho mais de fé, retomando os pensamentos anteriores, quando ouço uma voz pelos auto falantes do metrô: “É proibido sentar-se nos degraus das escadas e no chão. Por favor, não sente no chão.”

É, a chamada “civilizatória” atrapalhou a música, mas o anúncio em mais alto e bom som veio da peça nesta noite de sábado - sim, Vermelho comunicou-se comigo, estou em renovado estado de alerta.

Juliana Galdino em cena de Comunicação a uma academia. 
Fonte: Divulgação Club Noir.

[1] Entrevista concedida por Pedro, o Vermelho, no quadro Máscara, da revista Bravo!, disponível em <http://www.youtube.com/watch?v=jTUV5nB66sA>, acesso em 27 de setembro de 2013.
[2] Entrevista concedida por Juliana Galdino ao crítico Miguel Arcanjo Prado disponível em <http://entretenimento.r7.com/blogs/teatro/2013/04/17/juliana-galdino-volta-a-virar-macaco-em-comunicacao-a-uma-academia-no-cit-ecum/> acesso em 27 de setembro de 2013.
[3] Trata-se de um trecho da ópera Tristão e Isolda, de Richard Wagner.

3 comentários:

feltrinho disse...

Magnificamente bem escrito Carolina, suas observações e análise são interessantíssimas. Parabéns, amei!

pedrofaber disse...

Espetáculo incrível que tive oportunidade de assistir na 4a Mostra Sérgio Nunes de Artes Cênicas, aqui em Ourinhos.

Carolina Bassi disse...

Pedro, que legal!!!

Então ela foi pra Ourinhos?! Que lindo saber que você também viu!!

E como foi? Quais as suas lembranças, suas impressões?

Beijos,
Carol